Translate

terça-feira, 31 de julho de 2012

Um Pouco de História da Enfermagem: Da Idade Média aos Nossos Dias


  As mulheres enfermeiras sempre existiram, desde tempos imemoriais, circulando de casa em casa, de cidade em cidade; cuidando de outras mulheres, crianças, idosos, enfermos, deficientes e pobres. Esses cuidados de enfermagem incluíam partos, assistência aos recém-nascidos, ensino de higiene, realização de curativos e oferecimento de apoio, entre outras atividades.
  Os saberes relacionados ao ato de cuidar eram passados de mãe para filha, de geração para geração, de comunidade para comunidade. Essas cuidadoras desenvolveram grandes conhecimentos ligados aos ossos e músculos, a ervas e drogas. Paracelso, o pai da medicina moderna, admitia ter aprofundado seus estudos de farmacologia baseado no conhecimento adquirido com elas.
  Aos olhos da Igreja, o poder das mulheres que curavam decorria de sua sexualidade, esses poderes eram condenados como algo que provinha do diabo. Assim foram acusadas, nos processos de feitiçaria, de cometer crimes sexuais contra homens, de serem organizadas e, por fim, de possuírem poderes mágicos que afetavam a saúde, podendo tanto curar como prejudicar.
Para o povo, as enfermeiras eram conhecidas como “sábias”; para as autoridades, feiticeiras e/ou charlatãs. Com esse conceito, no século XIII, os Estados, junto com igrejas (católicas e protestantes) realizaram um movimento de extermínio de mulheres, e alguns homens, que detinham o “poder de curar”. Esse extermínio durou quatro séculos (do XIV ao XVII). Esse período marca a desapropriação do poder do conhecimento dessas mulheres em relação à saúde e corpo.
Apesar desse extermínio, as parteiras conquistaram um espaço, tendo sua definição pelo Tratado de SORANUS DE MULIERUM PASSIONIBUS: “Parteira é toda mulherer que examina as mulheres, instruída e perita na arte de tratar com eficiência, de tal maneira que é capaz de curar-lhes todas as doenças”.
  Mesmo com este reconhecimento, as parteiras teve seu desprestigio (inicio) no fim do século XI, com o fortalecimento da Igreja Católica. As parteiras autônomas resistiram até 1835.
  Uma lei promulgada pelo parlamento britânico, em 1902, pôs fim ao exercício profissional autônomo das parteiras, que passaram a ser submetidas a seleção e cadastramento, só podendo realizar partos sob supervisão médico.
  No período entre os séculos XVII e XIX, nossas ancestrais (parteiras e cuidadoras) perderam a vida na forca ou fogueira. Neste mesmo período, quase não há registro que enfatizam a existência das enfermeiras; é enfatizada a existência de mulheres pobres e sem estudo e qualificação, que cuidavam de doentes e viviam nos hospitais, lembrando que nesta época, as condições de vida eram intoleráveis.
  A Igreja passa a assumir a tarefa de cuidar dos enfermos; e começam a criar “escolas” em conventos. Com isso, os primórdios da enfermagem que conhecemos hoje se devem principalmente à Confraria das Filhas de Caridade de São Vicente de Paulo, na França, e ao Instituto das Diaconisas de Kaiserswerth, na Alemanha, que treinavam mulheres para cuidarem de enfermos e se tornarem eficientes na arte da enfermagem.
  Em meados do século XIX, ocorreram muitas reformas no reino britânico, tendo se distinguido como reformista da saúde Florence Nightingale, precursora da enfermagem moderna, cujo nome está entre os humanistas que mudaram o mundo. Ela criou a primeira escola de enfermagem profissional, transformando a enfermagem em ciência/arte, constituída pelo raciocínio e pela experiência. Florence com sua coragem, determinação e inteligência, transformou tanto o modo como as pessoas encaravam as enfermeiras quanto o tratamento que era dispensado às mulheres.
  Destaca-se, ainda, nessa época, a atuação da enfermeira Ethel Bedford-Fenwinck, fundadora, em 1887, da Associação Real de Enfermeiras Britânicas e, em 1889, do Conselho Internacional de Enfermagem (ICN).
  No Brasil, registra-se um fato inédito quando Anna Justina Ferreira Néri, baiana de 51 anos, movida por sentimentos humanitários e de mãe, já que seus três filhos foram para a guerra do Paraguai, decidiu ir prestar cuidados aos combatentes nesta Guerra. Na frente de batalha, distinguiu-se, prestando relevantes serviços aos combatentes durante cinco anos.
  Até o inicio do século XX, a enfermagem praticada no Brasil era exercida por religiosas, enfermeiras estrangeiras de famílias de diplomatas, pastores protestantes, pessoas formadas pela escola de enfermeiros do Hospital Nacional de Alienados e pela Escola Cruz Vermelha Brasileira, visitadoras treinadas por sanitaristas e atendentes que adquiriam conhecimentos nos hospitais da época.
  O paradigma da enfermagem dessa época enfatizava valores relacionados ao amor, abnegação e desprendimento, desprezando a luta por remuneração digna, condições ambientais de trabalho adequadas, inserção na vida social e politica, e desenvolvimento intelectual.
  Em 27 de setembro de 1890, o marechal Deodoro da Fonseca assinou o Decreto 791, que criou essa escola de enfermagem, destinada a formar enfermeiros para prestar assistência aos alienados e executar serviços civis e militares.
  Em 1921, graças ao esforço de Carlos Chagas, então diretor do Departamento Nacional de Saúde Pública do Ministério da Defesa, foi trazida dos Estados Unidos, com o apoio da Fundação Rockefeller, uma missão com nove enfermeiras para, entre outras atividades, organizar uma escola e o serviço de enfermagem de saúde pública do Rio de Janeiro. Essa missão permaneceu por dez anos nesse estado (1921-1931).
  Em 1926, em reconhecimento aos trabalhos prestados por Ana Néri durante cinco anos, como voluntária da Guerra do Paraguai, o governo designou essa nova escola de Escola de Enfermeiras Dona Ana Néri.
  Em 1931, no governo de Getúlio Vargas, foi promulgada a primeira lei do exercício da enfermagem (Decreto 20.109), que considerou a Escola oficial padrão.
Com o passar do tempo, constatou-se que o número de enfermeiras formadas não era suficiente para atender à demanda do mercado de trabalho. Surgiu assim a necessidade de preparar um novo tipo de profissional para assumir funções de menor complexidade no interior da profissão. A enfermeira Laís Netto dos Reis implantou, em 1941, na Escola Ana Néri, o primeiro curso de Auxiliares de Enfermagem, que rapidamente se expandiu pelo país inteiro. No final da década de 1960, a enfermeira Ciley C. Rodus implantou o curso de Técnicos de Enfermagem, que não obteve tanto o mesmo sucesso que o anterior. Em 1962, o ensino da enfermagem passou a integrar o sistema de formação do ensino Universitário público.
  As escolas de enfermagem permaneceram femininas até o advento do vestibular unificado e classificatório, exceção feita à Escola de Enfermagem Alfredo Pinto, da Universidade do Rio de Janeiro (UniRio), que sempre foi mista. Com o vestibular classificatório abriu-se espaço para a entrada dos varões nos cursos de graduação.
  No cenário brasileiro destacou-se o trabalho de Wanda de Aguiar Horta, da Escola de Enfermagem da USP, como a primeira enfermeira que ousou formular uma teoria de enfermagem, apresentada em 1968 em concurso público de livre-docência na Escola de enfermagem da UFRJ, intitulada: A observação sistematizada na identificação dos problemas de enfermagem nos seus aspectos físicos.

Referência: LIMA, Maria José de; O que é enfermagem; 3ª ed. São Paulo: Brasiliense, 2005.